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Um amigo “para pensar”

23rd agosto , 2016
amigo

Eu tenho acompanhado o Snapchat do Padre Fábio de Melo. Eu não sou católica, não sou sua seguidora, mas meus alunos comentaram que seus vídeos são hilários. Pra quem não conhece, o Snapchat é um aplicativo de rede social que você compartilha fotos ou vídeos que somem até 24 horas depois de postados. Enfim…a gente fica vigiando as novas postagens para acompanhar a vida e os pensamentos das pessoas. Há para todos os gostos, muitos famosos e nem tão populares estão usando o aplicativo para fazer divulgação ou até mesmo para falar de suas vidas e modos de ver o mundo.

Eu não tenho hábito de seguir muita gente. Alguns alunos me ensinaram a postar e eu brinco durante as aulas gravando as apresentações dos seminários na faculdade, os meus gatos também estão lá no snap fazendo peripécias, além de coisas sem grande importância, confesso que prefiro assistir mais do que postar… mas o padre Fábio de Melo acertou em cheio ao usar o snap para diversão e enviar mensagens. Ele professa discursos engraçadíssimos na maior parte das vezes, algo que nunca se esperaria de um padre e viva a nova igreja católica, o papa-pop-Francisco e a modernidade tecnológica.

Dia desses, o Padre Fábio estava tratando de um assunto do seu novo DVD e citou um amigo, seu produtor, que além de ser alguém muito competente no que faz é uma pessoa com quem ele gosta de estar junto “para pensar” (termo usado por ele).

Este “para pensar” mexeu muito comigo. Porque se olharmos a nossa volta, nem todo mundo está apto ou desenvolveu uma mente reflexiva para além do seu umbigo e afazeres cotidianos. Pensar não tem nada a ver com conhecimento, diplomas ou idade. Está no ato de ruminar experiências, ler pessoas, ter uma pensamento crítico sobre o que vê, sente, conhece, seja a partir de suas próprias experiências ou as que os outros compartilham de forma abstrata. Muitas vezes é um presente ter ouvidos e desenvolver uma escuta atenta a tudo que se tem contato para filosofar junto, ou depois quando estamos na quietude do nosso pensamento. Tudo é relevante, basta saber tirar proveito.

Eu confesso que tenho poucos amigos “para pensar”, mesmo aqueles que possuem doutorados e afins, muitas vezes estão mais preocupados em usar a teoria para dar aulas ou prestar concursos públicos do que para suas próprias vidas e, mais, para entendimento da vida dos outros. Ser especialista em ciências humanas não te torna mais humano. Infelizmente vejo que ocorre justamente o contrário: transforma o humano em técnico “não estamos aqui para entender e mudar o mundo, apenas para problematizar”. Foi isso o que um professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro me disse em meu primeiro dia de aula e que logo me fez desistir e entrar na Federal do Rio de Janeiro. Em todo tempo recebemos sinais…esse certamente era um.

Ter um amigo “para pensar” é ter um presente de inteligência ao alcance das mãos, é ser brindado com outras perspectivas, é saber que poderá se apropriar de diversas opiniões sem receio. É saber que ele irá de alguma maneira cultivar o seu terreno com boas sementes e saberá tirar de você o que está escondido debaixo de tanta tensão e preocupação.

Ter amigo “para pensar” é não fazer vista grossa, nem colocar pano quente, é falar de amenidades e torná-las muito importantes, porque simbolicamente o prosaico é relevante em nossas vidas, nem tudo tem relação com a paz mundial ou com o índice de HIV que aumenta na Nigéria.

Falar de coisas grandes do ser, do estar, do sentir, do fazer é tremendo. Como professora, sou agraciada todos os semestres com alguns alunos que se interessam em manter relacionamento comigo para pensar. Procuro fazer com que eles co-criem a disciplina comigo, façam escolhas baseadas no programa de aula e contem suas histórias, apesar da diferença de idade, seus anseios são tão importantes para mim quanto os dos meus colegas da sala dos professores. Todos são gente.

Eu não vou citar aqui os meus amigos que me fazem pensar e correr o risco de ser injusta… mas gostaria de prestar uma homenagem simbólica a todos aqueles que me fazem pensar rindo ou chorando, de diferentes idades, cores, grupos sociais, origem, religiões e gostos completamente diferentes dos meus, assim como aqueles que possuem tanta afinidade que conversar com eles pareço estar falando com um espelho. Esses conhecem minha alma, sabem arar a terra e escolher a boa semente.

Espero que o contrário aconteça comigo e eu possa ser um bom lavrador para muitos que me leem, muitos que lidam comigo no dia a dia ou através das ondas www. Que nossos pensamentos não passem em vão e que a prosa continue viva seja lá de que maneira for. Amém.

Obs: Pra quem quiser seguir o Padre Fábio de Melo, seu snapchat é o fabiodemelo3