BLOG

Sobre o desejo de comprar

18th novembro , 2017

Lembro-me de uma época em que ter filhos era apenas ter filhos. A gente olhava aquela moça com um barrigão e se impressionava, porque ali dentro tinha um neném. O tempo passou e, quase 22 anos depois, eu vejo uma mudança significativa nesse mercado “new-baby-fashion-style”. Acompanho minha irmã enlouquecida atrás do “melhor-tudo”. Nada pode ser comum. Nada pode ser de cor pastel simplesmente. Os produtos do bebê (que ainda nem nasceu) precisam ser da melhor qualidade possível, tudo de melhor para o “semideus” que chega à família, que carinhosamente chamo de pequeno Buda.

 

Essa divindade, mesmo sem saber, possui um poder de grandes proporções. Para ele, nada é mediano, não há fralda mediana, chupeta mediana, quarto mediano. Certa vez, minha irmã, que estava grávida, entrou em uma loja e perguntou para a vendedora se havia lençóis para berço; ela mostrou um conjunto composto por três peças, percal 200 fios e outros “paranauês” que o tornavam completamente necessário e caríssimo. O valor do item era, de fato, estratosférico. Comparativamente, era um pedacinho de tecido macio mais caro que um conjunto de cinco peças para uma cama queen size. Uau! Minha irmã parou, pensou… Em um dado momento, sua racionalidade se fez presente e indagou: “Mas eu tenho que comprar um lençol desse tipo para o bebê?”.

 

A vendedora retrucou com uma pergunta: “Em que lençol você dorme?”. Minha irmã disse que usava o tal percal 200 fios e aí o golpe de misericórdia da astuta balconista: “Ué, você vai comprar um lençol de qualidade inferior para seu filho?”. Uma grávida feliz entrou na loja e uma mãe triste e culpada saiu de lá.

 

Aquilo lhe pareceu um desafio. Não satisfeita, a grávida pecadora correu o mundo das webs e das lojas da sua cidade em busca do lençol especial, até que o encontrou. Comprou. Sentiu-se vitoriosa. Estava cumprindo seu papel diante da divindade que logo nasceria. Ele, que certamente nos dará todos os novos preceitos que seguiremos. O mais curioso é que esperamos ansiosos pelas crenças que serão renovadas.

 

Que venha o pequeno Buda! Amém.

P.S.: Caro varejista, o consumo está no sentido simbólico, nos sentidos, atente-se a eles!

 

Data de publicação: 30 de maio de 2017
Fonte: http://revistavarejosa.com.br/colunistas/sobre-o-desejo-de-comprar/