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O ATIVISMO EMBRULHADO PRA PRESENTE

19th agosto , 2016
ativismo

Negra, ativista, mãe, ativista, atriz, ativista, diretora de cinema, ativista, produtora, ativista, jornalista, ativista, pobre, ativista, mulher, ativista, cantora, ativista, liderança comunitária, ativista, escritora, ativista…Ativismo, ativismo, ativismo…representatividade no grau máximo. Uau. Aplausos.

Olho as fotos postadas nas redes sociais, acompanho as falas super bem posicionadas e cuidadosamente ensaiadas. Conflito de ideias? Nunca, o povo todo está lá pra falar bonito e a plateia, tipo eu, tipo você, tipo o povo do mercado tá lá pra ouvir, pra se inspirar e no máximo sentir vergonha. OK. Tô pegando pesado. A plateia também fica mais esperançosa e admirada. É pra admirar. É gente de verdade falando da sua bandeira, da sua luta e do seu pensamento.

Lindo.
Lindo também é ver como são representantes embalados pra presente. Turbantes incríveis, moda linda, magras, magros, tênis da Nike ou da Adidas… ou Converse. Muito glam, muito brilho, muita trança, o cabelo fala e as cores dos apliques e da make também.

Ativismo embalado pra não assustar o mercado.
Cadê a negra sem trança? Cadê a ativista fora do peso? Cadê aquela mulher comum que faz o ativismo no dia a dia? Cadê aquela ativista que fala errado merrrmo? Cadê a MC Carol? Num tem… sabe por que? Porque poucos “engolem”.

Né?
Porque quando tá embrulhado pra presente é mais fácil ouvir, a pobreza não grita, fica só no storytelling do evento. A desigualdade ou a “falta de beleza” não está sendo esfregada na sua cara. O Brasil de verdade não está no palco, tá servindo o café ou limpando o banheiro dos eventos.

Seguir escritor poeta-pobre que escreve na Internet é fácil, ler o que ele diz ou critica também é… aí você adora, compartilha, curte e elogia, mas vai pegar busão todo dia e viver a vida que ele leva? Escrever a verdade nua e crua não é de hoje, desde o naturalismo era assim…Estou errada?

Ao menor sinal de fumaça, desconforto, reclamação da empregada, do carinha que te incomoda com a pobreza dele você nem pensa. Melhor ficar aqui sentado na Herman Miller no ar condicionado e ver tudo pelo meu Mac.

Vai vendo.
Este post é dedicado a Erica de Freitas negra, militante, sem aplique, uma grande produtora de filmes que trabalha nos bastidores. Luta, garra e verdade. Pensei nesse texto tendo uma conversa com ela <3. Obrigada por me motivar amadinha!