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Dicas para viajantes: Não faça roteiros!

23rd agosto , 2016

Nunca fui chegada  a fazer muitas  viagens, estava extremamente focada em me formar e conseguir bons trabalhos para me sustentar. Até chegar o momento que você já acumulou tudo que podia e deveria – se formou, conseguiu um emprego estável, montou sua casa, comprou seu carro, criou um bom guarda-roupa para trabalho, etc. – e é hora de partir para outro tipo de aventura: o consumo de experiência.

Eu já viajei muito a trabalho, mas férias sem qualquer tipo de preocupação foi uma novidade que só depois de 14 anos de trabalho duro consegui conquistar. E fui mordida pela sensação do ócio. Eu não tinha um trabalho para entregar ou uma tese para escrever e venci o grande desafio de converter a minha noção de gasto em investimento.

Não, nem todos nascem com esta lógica. Muitos dos nossos valores são repassados pelos nossos pais e como filha de comerciantes que nunca tiraram férias sempre enxerguei a viagem como um dispêndio. A vontade de engolir o mundo era silenciada pela segurança da poupança, da possibilidade de crise, da necessidade de sentir a salvo caso ocorresse alguma emergência – o que nunca ocorreu, amém.

Até que um dia… você aprende que dá pra fazer tudo sim. Em certos casos, dá pra você guardar um pouco de dinheiro para as tais temidas emergências, ou contar com amigos, família, financiamentos e créditos quando a situação for extrema. Quando deixamos de levar em consideração todas as possibilidades de ajuda e passamos a carregar o peso do mundo? Em que tempo vivemos onde o dinheiro, ou melhor, o acúmulo de bens se tornou o objetivo de vida? Acredito que é hora da gente parar para pensar em nossas prioridades. Será que retrocederemos aos tempos antigos egípcios e construiremos grandes sarcófagos para levarmos tudo que compramos e acumulamos para uma outra vida?

Aprendi que devemos sim apostar e investir em outro tipo de acúmulo: o capital que se dá através das trocas multiculturais que só as viagens e as pessoas podem te ofertar.

De todo modo, investir em bem-estar, conforto, viagens, a arte do encontro com relíquias, belezas e história devem ser a pedra de toque de uma nova vida. Mais vale uma vida de poucos luxos cotidianos que o desgaste em trabalho e energia para dar conta de tantas contas que poderiam ser facilmente substituídas. Ainda me pergunto a razão de certos indivíduos comprarem tantos carros potentes se o trânsito das grandes cidades sequer te deixa andar mais que 60 quilômetros por hora?

Sim, eu sei, você vai pensar no âmbito da conquista, da emulação – mostrar que tem o consumo conspícuo…etc. No entanto, em tempos de redes sociais, mais vale construir uma vida lotada de fotos de novas descobertas inesperadas e aprazíveis que encher a casa de quinquilharias que logo não serão utilizadas e possivelmente descartadas.

Depois de uma grande viagem de férias a gente faz um balanço.

Resolvi então, escrever alguns pontos a serem levados em consideração (na minha opinião, claro) para se preparar para um boa jornada:

Fuja do óbvio:

Roteiros ou cidades que estão na moda só te trarão aborrecimento, vôos lotados, filas, alto custo de tudo…Corra, pra longe desses lugares. Cusco no Peru, por exemplo, está na minha lista top 5 de lugares para não se ir agora.

Delete aquelas pessoas que te impõem certas regras:

Quem foi a Paris e não conheceu o Arco do Triunfo não foi a Paris…quem foi a Roma e não conheceu o Coliseu não foi a Roma… And so what? Minha Paris é diferente, minha viagem não é a sua. Dê um chega pra lá educado no intrometido, que ele engula suas normas, as minhas e as suas devem ser outras a gente não tem nada a ver com regras alheias.

Não faça planos como se o mundo fosse acabar no dia seguinte:

É uma viagem ou uma maratona? Portanto…

Respeite o tempo do lugar:

Pare, sente e flane sem pressa. Volte nos lugares que mais gostou, tome aquele sorvete sentado no mesmo banco, aposto que você verá mais detalhes do que a primeira vez. Curta o clima, ouça conversas dos outros, jogue milho para os pombos. Faça coisas que você nunca fará na sua casa, no seu bairro, na sua cidade.

Respeite seus limites

Coma e beba bem, mas sem exageros, você poderá voltar naquele lugar no dia seguinte, certo? Repita o prato, peça opinião para o atendente, pergunte sobre o que ele mais gosta do cardápio. As trocas não têm preço e essa é a grande riqueza.

Quem converte não se diverte

Não fique o tempo inteiro fazendo conversões. Se há pouco dinheiro procure opções dentro do seu orçamento. Comida de rua pode ser tão saborosa quanto um restaurante chique. Coma o que os locais comem, se joga!

Entre nos becos

Ruas menos populares, lugares nada turísticos, se encante com a decadência e com a modernidade, com produtores locais, ou pequenos restaurantes, os mais simples e nada convencionais como também os modernos e descolados.

Pra quê andar de gôndola em Veneza?

A decoração é chinesa, há uma máfia de vendedores e se pode conhecer tudo a pé.Também vale para a Torre Eiffel em Paris… te garanto que olhá-la de longe é mais emocionante que olhar a cidade lá de cima. Sou do Rio de Janeiro e não me faz falta nenhuma ir ao Corcovado. Adoro olhar o Cristo de longe e saber que ele está ali me vendo.

Não fique fazendo tantos planos antes da viagem

Deixe-se surpreender, nada como uma excelente descoberta. A surpresa é o tempero da viagem.

Aprenda o mínimo para se locomover, fazer um bom câmbio e organizar a mala certa

Porque o resto você terá condições de se aventurar. Viagem é aventura, então jogue fora esses  roteiros decadentes e previsíveis! TripAdvisor é furada! Faça o seu roteiro e você poderá se apaixonar pela cidade, crie um vínculo…volte sempre, quantas vezes puder na vida, e faça novas descobertas todas as vezes, essa é a graça.

Escolha muito bem a sua companhia de viagem

Procure um parceiro com os mesmos valores e pretensões que as suas, não tenha como companheiro de viagem um ditador caso você esteja numa vibe mais calma. Acorde tarde, perca o café da manhã do hotel… passe um dia gelado de frio dentro do quarto vendo um filme.

Sempre que viajar pense na volta:

Tire dois dias para descansar.

E não, você não é obrigada a ser mula dos parentes e amigos. Faça boas fotos e mande para os seus queridos, ser lembrado durante a viagem é uma homenagem e tanto, não pague por quinquilharias, ocupa lugar na mala e depois serão esquecidas. Se for pra fazer uma graça traga algum sabor local que seja típico, chocolate suíço, pó de café colombiano, mas o mais importante são as muitas histórias que vem com você na mala, são leves, invisíveis, não ocupam espaço.

Se for o caso escreva um diário de viagem e compartilhe nas redes sociais. Uma vez viajei para Santiago e escrevia pequenos diários do que tinha visto e feito a cada dia, era incrível como os meus amigos facebookianos curtiam a viagem junto comigo e davam opiniões, dicas e pediam fotos. Viajaram comigo, me senti uma guia turística, foi demais!

E para terminar, o mais importante: Viva o seu momento

Divirta-se, ouse, ria, e faça tudo aquilo que você não faria no cotidiano. Abra os braços e cante uma música contagiante. Grite. Se emocione, não se importe com o que os outros vão pensar…são suas férias.

Se joga!