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Ao morar em uma favela, aprendi a enxergar o que a sociedade do asfalto nunca conseguiu me ensinar

18th novembro , 2017
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Ao iniciar a pesquisa de campo em uma favela carioca, em janeiro de 2011, entendi que era preciso estar naquela localidade o maior tempo possível para acompanhar as situações sociais que ocorriam ali. Assim, durante todo esse período, aluguei três casas, em diferentes áreas, com o objetivo compreender o melhor possível as dinâmicas locais.

A experiência de morar no lugar e conviver com os moradores despertou meu interesse pela favela como um todo. Entendi que, para compreender coisas como acesso (distribuição), consumo (modos de uso, práticas, hábitos etc) e compartilhamentos de bens e serviços públicos e privados (água, energia elétrica, TV a cabo e internet) eu deveria entender essa dinâmica sob vários aspectos e pontos de vista. Especialmente, a partir das lideranças, das estruturas políticas de organização, dos modos de resolução de conflitos, até chegar à interface da favela com o Estado, ou seja, as instituições e autoridades municipais e estaduais, entre outras. Eu não fazia ideia que ali começava uma relação empática onde, através da convivência contínua e aprofundada, desenvolvi vínculos sólidos verdadeiros.

Não há pesquisa verdadeiramente antropológica que não mude o pesquisador. Eu fui afetada para sempre

Deparei-me com uma favela dotada de profundidade temporal (surgiu por volta de 1930) e com uma organização política própria. Como em tantos outros agrupamentos sociais, também na Barreira do Vasco (que fica em São Cristóvão, na região portuária do Rio de Janeiro, e tem cerca de 8 mil domicílios) foi possível observar o sistema de crenças e valores, o sistema de parentesco, as redes sociais e uma rica cultura material, movimentada por lógicas próprias de compartilhamento, consumo, dotadas de moralidades, formas de provisão e hierarquias de necessidades. Todos esses aspectos marcam o que é viver e morar em uma favela. Importante frisar que uso o termo “favela” porque os moradores usam o tempo todo.

Mas preciso dizer o quanto a palavra “favela” assumiu outros contornos para mim ao longo dessa experiência etnográfica. Antes da pesquisa de campo, eu era uma estudante de Antropologia convencida de que o problema da favela se resolvia plenamente no âmbito dos estudos urbanos, das teorias antropológicas voltadas para as sociedades complexas, geralmente vinculadas à questão da pobreza em contextos de desigualdade.

Acreditava que eram aglomerados que, apesar de complexos e urbanizados, sofriam com os estigmas relacionados às falhas do “desenvolvimento e progresso”. Sem desmerecer esta abordagem e todos os frutos que ela produziu no âmbito dos estudos urbanos recentes, não pude deixar de observar, como “moradora de favela”, que a exclusividade desta perspectiva obscurecia aspectos cruciais que diziam respeito ao vigor, à riqueza e à singularidade positiva das relações sociais que ocorrem ali.

Percebi que a favela não poderia ser explicada somente a partir da pobreza, da carência e da precarização, pois ali já existem soluções próprias e inovadoras para problemas que a sociedade ainda não resolveu

Sob vários aspectos que pude constar, a favela apresenta expressões sociais que, apesar de informais ou ainda não legitimadas pelas instituições estatais, estão cada vez mais afinadas com a vanguarda do pensamento social e econômico contemporâneo. Ou seja, de muitas maneiras, sem mesmo ter consciência do seu estilo de vida calcado nas “sustentabilidades” — social, econômica, ambiental etc — os moradores da favela já ultrapassaram e superaram dilemas da própria sociedade.

Assim, em determinado momento, passei a perceber a favela não mais como “problema social”, mas como um tipo de produção de localidade que possui um “enraizamento” sociocultural próprio. Não são, portanto, espaços e populações que precisam ser beneficiadas por regimes de ordenamento ou mesmo “pacificadas”, “civilizadas”, mas, antes de tudo, compreendidas em suas capacidades transformadoras e regeneradoras do próprio tecido social urbano em contextos metropolitanos de países como o Brasil, China, Índia e, sobretudo, países africanos.

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Essa mudança de perspectiva não ocorreu naturalmente, mas resultou de um regime de proximidade “situado”, isto é, fundado na hospitalidade e no meu acolhimento como “moradora da favela” em diferentes ocasiões nas quais me “submeti” aos códigos locais, só ai pude exercer a empatia, sentir como sentem, tomar como próprio o que os interlocutores vivem. Para esta mudança de perspectiva, concorreram inúmeras pessoas de lá (moradores), e do lado de cá (professores, autores e amigos).

Percebi, ao longo do trabalho de campo, que os conflitos estão sempre presentes. Uma manifestação disso é encontrada na relutância das pessoas em aceitar compromissos que vão contra suas lógicas (de acesso e consumo de bens e serviços) estabelecidas, como o receio da chegada dos serviços das concessionárias de energia elétrica e a problemática suspensão da “gatonet” (a TV a cabo clandestina).

Em março de 2013, quando houve a ocupação pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) na Barreira do Vasco, percebi que estava diante de um “drama social”, na medida em que a UPP era organizada, estruturada, exclusivamente a partir de elementos externos à favela. A atuação do Estado era pautada por uma lógica ética que parecia não (querer) compreender ou dialogar com as socialidades consolidadas localmente.

Entre ambiguidades e conflitos, a vida na favela segue. As pessoas vão encontrando meios para torná-la viável a partir de uma organização social própria

Essa organização é concebida com base em lógicas e valores próprios que, na maioria das vezes, se opõem às perspectivas e anseios “oficiais” propostos pelo Estado. No meu trabalho, busco apresentar e enfatizar como os moradores construíram formas de regulação e organização, que por vezes competem ou são prejudicados pelos imperativos oficiais no âmbito governamental.

No meu entendimento, essa perspectiva tem um problema, pois marca a favela como um não-lugar, como o espaço do transitório e, portanto, aquilo que em última instância faculta as incursões do Estado, não para consolidar esse espaço, mas para tentar eliminá-lo.

Do ponto de vista dos moradores das favelas, é fato que tudo começa como provisório e irregular, com um jeito ou arranjo, mas que paulatinamente vai se “consolidando”, tornando aquilo que antes era uma solução “temporária” em algo permanente e até “institucionalizado”. Do mesmo modo, as novas “necessidades” são englobadas pelas formas “tradicionais” de acesso aos bens e serviços, fazendo com que novas “irregularidades” se apresentem na obtenção de novos serviços, como a TV a cabo e a internet banda larga.

Por outro lado, em tempos recentes a imagem da favela “turística”, localizada em áreas nobres, tem sido transformada. A criatividade de seus moradores – desde as construções de suas casas em lógicas que deixam arquitetos e engenheiros perplexos, assim como as formas de transporte (moto-táxi) e os arranjos técnicos desenvolvidos para acesso à energia elétrica e à água potável, bem como a contratação de serviços de TV a cabo e internet – a meu ver, os afastou dos estigmas ligados à “carência de recursos” ou à “criminalidade”.

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Os moradores de favela assim apresentados, embora ainda sofram com tais estigmas, se revelam como cidadãos que engendram dispositivos técnicos e sociais para superar as falhas que marcam a distribuição e o fornecimento, em suas casas e vizinhanças, dos chamados “serviços essenciais”.

Exemplo deste “novo olhar” para os moradores de favelas e seu contexto de vida foi evidenciado pela antropóloga Bianca Freire-Medeiros ao estudar o turismo na favela. Ela apontou que “a força da marca ‘favela’ tornou-se capaz de transcender o referencial territorial, promovendo tanto o que é brasileiro quanto o que pretende ser ‘alternativo’, ‘descolado’ e ‘reciclado’”.

Creio que esta é a questão fundamental de meu trabalho, minha principal contribuição para o entendimento desse espaço e para definição e constituição do modo de vida que pude observar na Barreira do Vasco. A partir dessa noção de “economias de compartilhamento”, abordei as diversas formas de uso compartilhado daquilo que em outros contextos é particularizado e individualmente apropriado e utilizado.

Significa abordar os bens a partir de uma hierarquia estabelecida sob critérios de circulação e compartilhamento próprios, buscando entender o que leva um bem ou serviço a ser “necessidade”, o que torna desejável “a propriedade” de um bem e o que faz com que outros sejam passíveis de empréstimos ou compartilhamento. Há, ainda, coisas compartilhadas com o objetivo de obtenção de lucro financeiro; outras fogem a essa lógica e são simplesmente compartilhadas. Percebi que esses tipos de compartilhamento caracterizam e geram pertencimentos ao lugar e a redes sociais.

No caso da Barreira do Vasco, as pessoas concebem e organizam o compartilhamento de energia elétrica e outros serviços quando, por exemplo, várias famílias partilham o mesmo medidor (ou mesma gambiarra) através de ligações “clandestinas”. A partir dos relatos, apresento as questões que caracterizam esse “compartilhamento”, discutindo desde as elaborações técnicas desses artefatos até a ética e as regras de uso, isto é, como os proprietários ou “guardadores” dos medidores e das ligações regulares repartem a energia elétrica emprestando seu medidor aos demais.

Outra prática observada é a rede de empréstimos, tanto para bens duráveis como aparelhos domésticos (batedeira, chapinha de alisamento de cabelo, liquidificador, gaveta de freezer, panelas de grande capacidade, máquina de lavar roupa, varais, roupas e acessórios para ocasiões especiais), quanto medicamentos ou alimentos em horas de emergência (emprestar um ovo, um copo de açúcar, arroz etc).

Muitas vezes, eles deixam de comprar certos objetos porque seu vizinho já o possui. Os objetos, então, circulam por diferentes domicílios, atendendo a diferentes usuários

A água também é um bem comumente compartilhado. Não é raro ver pessoas carregando baldes ou galões de água pela favela. A fonte do recurso é a torneira de algum parente ou vizinho ao lado pertencente a mesma rede social. As “borrachas” (mangueiras) ligadas em inúmeras torneiras criam caminhos e desenhos sinuosos no chão da favela, ligando vizinhos num emaranhado de canos maleáveis por onde passa o mais valioso dos bens.

Existe um tipo de mercado local – podemos chamá-lo de “criativo”, “alternativo” ou “colaborativo” – que procura atender, preferencialmente, à população de baixa renda que não tem acesso ao mercado formal nem aos programas governamentais de provisão.

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Outra questão a ser considerada: a proximidade entre a oferta do serviço e o contratante. A “personificação” do serviço cria laços de confiança, pois quando ocorrerem (e se ocorrerem) problemas, haverá sempre aquele que mora próximo, possui um nome, um endereço ao qual poderá recorrer. Não há a impessoalidade (e descrença) na busca de solução por meio de um número de telefone de Serviço de Atendimento ao Cliente. Quando o vínculo próximo já existe, facilita a contratação e negociação de valores mais adequados para o “cliente”, seja vizinho, amigo, compadre.

As “economias de compartilhamento”, no entanto, revelam mais do que técnicas e arranjos para suprir necessidades. Elas expõem os fios que formam a malha social da favela, com seus valores morais, suas dificuldades e também suas histórias de superação. Elas existem porque são um valor importante dessas populações.

O pesquisador traz consigo uma historicidade, uma carga de vivências que vão dar o tom de suas descobertas durante o trabalho de campo. Ingênuo pensar que se tem mais a ensinar do que a aprender com os nativos, ou seja, com aqueles interlocutores que se estabelece relações. Somos feitos disso: relacionamentos. Foi através destes, ou da sua falta (já que nasci e fui criada em um bairro de classe média verticalizado onde a individualidade é um valor cultivado e defendido ao extremo), que pude vislumbrar o que a favela tem de bom: gente.

Como antropóloga, não poderia deixar de tratar das pessoas e dos vínculos que estabeleci ao longo desses quase quatro anos de contato. Dessa maneira, só consegui desenvolver a empatia através da entrada em suas redes sociais presenciais e virtuais.

Estabeleci laços sociais tão próximos que me senti muitas vezes “cooptada” e fui percebida, e tratada, como parte deles, apesar de nossas diferenças socioculturais

Foi a partir deste vínculo que deixei de ser percebida como uma pesquisadora ou agente da “área social” (menção ao meu campo de atuação profissional) e conquistasse uma identidade própria. Passei a ser percebida como alguém mais próximo, por vezes apontada como “de casa” ou “das nossas”, o que se exemplificava através da liberdade adquirida para abrir a geladeira de algumas casas – ação extremamente representativa de intimidade, indício inequívoco de “familiaridade”.

Através desta intimidade conquistada pude perceber e fazer parte das “Economias de Compartilhamento”, uma forma de reciprocidade na esfera íntima onde ocorrem compartilhamentos de objetos comuns e corriqueiros a serviços como o cuidado de crianças e idosos.

Desse modo, os “gatos”, as gambiarras e os arranjos técnicos são algumas das expressões que me levaram até a favela inicialmente, mas que no decorrer do trabalho etnográfico, se mostraram apenas um ponto de partida para algo muito maior: os “gatos” fazem parte de um dos bens e serviços compartilhados.

Esse foi o modo que encontrei para apresentar o percurso que fiz para acessar, observar e interpretar as muitas “análises situacionais” imbricadas nas economias de compartilhamento e sua centralidade no universo estudado. As divisão, provisão e partilha me surpreenderam enquanto seguia os caminhos das favelas com seus fios e canos.

A “economia de favela” tem muitas lições a serem conhecidas, aprendidas e praticadas se forem de fato pesquisadas e vivenciadas sem julgamentos, preconceitos e etnocentrismo

Os moradores de favela me ensinaram a enxergar o que a sociedade do asfalto nunca conseguiu: viver o compartilhamento na sua essência, onde o coletivo se sobrepõe ao indivíduo em muitas situações.

Eu não sou mais a mesma. Obrigada, Barreira do Vasco.